Conto – Encurralada

As Planícies Escarpadas ou, como era conhecida ali, Griffuldûr era uma terra sombria, maldita e perigosa. Os exércitos negros de Kzários, Senhor das Sombras e da Inveja governavam o lugar. O país localiza-se ao sul do continente Tertius, extremo oriente do mundo plano. Cercado por terras pantanosas e lodosas. No âmago deste país imundo localiza-se a concentração do poder de treva — os kzaelds [qui-zéld], elfos negros, governam estas planícies regadas ao sangue dos escravos que eles aprisionam.

Diariamente centenas de pessoas são acorrentadas e trazidas para cá, onde sofrem tortura em troca de alguma confissão ou pelo simples motivo de causar prazer a seus torturadores vis. Os kzaelds são de uma linhagem maldita dos elfos, não é preciso dizer que os dois lados se odeiam mutuamente. Caçando-se uns aos outros numa guerra milenar e perpétua.

Não era diferente naquela tarde, ou seria noite? Não era possível saber. Olhando-se para o céu apenas se via sombras, fumaça e relâmpagos. Cheiro de queimado espalhava-se por toda a parte. Parecia que o próprio ar era venenoso e hostil. Griffuldûr era conhecido por ser o Abismo na Terra-plana. Até mesmo os demônios se incomodariam de viver ali.

No entanto, vivia-se, ou melhor, existia ali muita gente. Estavam vivos sem saber por qual motivo ou mesmo até quando. Pois sem mais, nem menos, sua hora poderia chegar e a lâmina a trespassar seu corpo. Talvez esta saída fosse melhor do que vivenciar os horrores daquele povo sombrio.

Ao menos era o que Andèmona pensava constantemente. Sendo uma mestiça, filha de um humano com uma elfa negra, desde pequena sentia-se rejeitada, abandonada. Não tinha notícias dos pais, nem ao menos sabia quem eles eram. Vivia perambulando pelos subterrâneos de Aghmânder, uma grandiosa cidade cavernosa abaixo das planícies. A pequena tinha olhos de cores cinza claro em tons levemente violeta. O corpo delgado exibe pernas fortes, como todo o corpo bem constituído. A expressão carrega o tom duro dos humanos, porém com traços delicados élficos. Sua pele lisa é cinza escuro; enquanto os cabelos sedosos são brancos como o leite.

Como muitos que ali viviam, Andèmona era mais uma que, na verdade, sobrevivia. Furtara uma faca de um moribundo assassinado num beco. Era com aqueles vinte centímetros de aço mal afiado que ela garantia sua sobrevivência. Vez ou outra era encurralada por alguns guardas oportunistas e precisava ganha-los na lábia, mas às vezes era preciso lutar. Tentava tirar proveito sempre, usava o lixo ao redor, as barracas do mercado, as próprias pessoas… ; com as sombras ela não podia contar. Afinal, eram kzaelds, enxergavam tão bem no escuro quanto os anões. Aos poucos Andèmona aprendeu que nem sempre poderia usar a sombra como sua aliada. A escuridão apenas preenchia metade de sua ascendência, a outra metade era repleta pela luz do sol. Luz que ela nunca havia visto.

Fugir não era uma opção. Já tentara abandonar a cidade algumas vezes, mas a vigilância de tudo o que entrava e saía era muito grande. As guildas controlavam tudo de muito perto. Tinham controle de tudo. Passou meses a finco tentando encontrar uma brecha na vigilância, de modo a se aproveitar e dar continuidade em sua fuga. Até que um dia encontrou. Um grupo de elfos da superfície combatia a guarda dos exércitos negros. Porém os kzaelds levavam a melhor e, se o combate continuasse, eles venceriam. Andèmona assistiu ao confronto escondida por entre escombros e cobriu-se com seu manto em trapos encardido e fedido.

Eram, ao que parecia, dois magos e um guerreiro que também utilizava magia. Ela ficou encantada com eles. A habilidade exímia em que combatia os temidos soldados kzaelds. Mas eram apenas três contra cinco, logo chegariam mais três ou quatro. E não tardaria para ter uma diferença de cinco para cada um deles. A meio-elfa nem pensava em se intrometer. Ela mal conseguia sobreviver mantendo-se na inexistência, tornar-se pública significaria o seu pescoço. Ser um mestiço significava a morte. Era algo intolerável para os elfos negros.

Ouviu-se então uma corneta. Eram os reforços dos exércitos negros chegando. Ouviam os passos rápidos ecoando pelo chão cavernoso. Um dos magos carregava um cajado que emitia uma luz tênue, porém eficaz para sua visão élfica naquele negrume do subterrâneo. O outro tinha uma varinha em cada mão e delas disparava raios contra seus oponentes. O terceiro, o guerreiro élfico tinha uma espada flamejante em mãos e um escudo brilhante.

— Estamos encurralados. — Andèmona entendia muito pouco de élfico, mas compreendeu um deles arfando alguns dizeres aos companheiros.

O elfo com o cajado bateu com a haste de madeira contra o chão e repeliu os soldados kzaelds para longe.

— Rápido — disse ele ao se recompor —, não teremos muito tempo.

Em seguida estalou os dedos e recitou algo num idioma que ela não compreendia. Mas sabia pertencer aos utilizadores de magia. Era uma língua aranhosa e chiada.

Então, de repente, abriu-se diante deles um portal. Na mesma hora em que guardas e mais guardas surgiam pelos becos e vielas. Sem pensar duas vezes, a meio-elfa saltou o entulho em que estava agachada e correu em direção ao portal. Após os três entrarem ele se extinguiria, ela supôs isso. Portanto, saltou e rolou para dentro dele seguindo os calcanhares do guerreiro, que foi o último a entrar.

Quando terminou de rolar, Andèmona viu-se sobre um gramado fresco e úmido. Cheiro de folhas espalhava-se ao redor. Acima dela a copa das árvores estendiam-se muito acima do solo.

— Peguem-na! Ela cruzou o portal.

Ela precisava agir rápido.

— Não sou kzaeld. Sou meio-elfa. Era perseguida. Ajuda, por favor.

Falou aos soluços as poucas palavras que havia aprendido e que julgava correto dizer. Seus olhos encheram-se de lágrimas, sentia um gosto azedo na boca que tremia.

Os três elfos não entendiam como aquela garota conseguiu passar pelo portal. Amistalen havia repelido todos os elfos negros para longe para que pudessem fugir de Griffuldûr. Então, se perguntavam: como aquela garota havia conseguido escapar de lá junto deles?

Após algum tempo falando entre eles em élfico — que Andèmona nada entendeu, pois estava nervosa demais para raciocinar as palavras que conhecia e tentar traduzir —, eles voltaram-se para ela. Quem falou foi o elfo que antes usava varinhas, que agora estavam afiveladas em seu cinto.

— Vemos que fala a verdade. — ele disse na língua dos elfos negros, uma versão distorcida do próprio élfico. Mas que Andèmona entendia bem. — Nunca será bem vista por sociedade alguma. Nem humana, nem elfa e jamais dentre os de sua linhagem.

A pequena balançou a cabeça enquanto limpava as lágrimas com os dedos.

— Sou Andèmona. — ela disse com a voz mais firme.

Ela seguiu com os três pela floresta em plena madrugada. Viu animais silvestres de um lado ao outro. Um cervo, alguns coelhos, corujas e outros pássaros. De repente chegam a um vale e cruzam uma ponte de pedra. Abaixo existe um grande rio. O sol então nasce lentamente entre as copas das árvores mais altas.

Eles percebem que a garota mestiça para e arregala os olhos. Pisca algumas vezes, esfregando-os até se acostumar com a nova claridade. Então chora. Quando lhe perguntam o que era, ela responde:

— Eu nunca tinha visto o sol. É lindo.

Aquele era o primeiro amanhecer que Andèmona viria dentre muitos. Durante os anos em que passou entre os elfos viveu bem. Para ela foi o paraíso. Apesar das dificuldades e preconceitos que Caerd havia avisado desde o primeiro dia que ela enfrentaria. Com eles ela aprendeu a caçar e a sobreviver da terra. Tornou-se exímia perita com a lança e ficou claro para seu treinador com armas que ela era ambidestra. Muitos anos vivendo entre os kzaelds a haviam capacitado a realizar feitos que até mesmo os elfos ficaram surpresos.

Cresceu e tornou-se forte, ágil e resistente. Logo foi aceita entre os caçadores élficos e os acompanhava em missões pela floresta para proteger-se do poder do império ardil que se expandia a cada dia e tentava constantemente invadir a fronteira de Fiênili, o reino élfico em que agora ela vivia.

Conforme o tempo se passou Andèmona amadureceu e ganhou a confiança do povo élfico; a moça recebeu um pequeno grupo de caçadores para liderar. Havia cinco elfos e dois meio-elfos. Os anos que passaram juntos foram muito agradáveis e gratificantes. Caçavam juntos, defendiam as fronteiras e relatavam os acontecimentos aos superiores. Para a meio-elfa negra, ela não era sua líder e eles os seus subordinados. Eram todos patrulheiros e estavam naquilo juntos. Eram iguais.

Também com os elfos aprendeu a doutrina da Deusa Mãe Natureza, Maya. Ela que já respeitava os animais e plantas, aprendeu as artes curativas e sagradas da Mãe Natureza que, como os demais devotos, chamavam de forma contemplativa de: Deusa.

Era comum nas horas vagas ela passar lendo poesias e literatura dos elfos. Aprendeu muito sobre a história e características dos povos. Diziam os estudiosos que aquela época em que vivia era a Era do Sangue e do Aço, a III Hexa do mundo. Para Andèmona o aço estava sempre coberto de sangue, na verdade. Mas agora encontrara a paz que sempre desejou para si.

Tudo estava bem até seus velhos inimigos voltarem a atormentá-la. Kzaelds!

— Flechas negras e aranhas monstruosas estão invadindo pelo leste. — reportou Kin, um de seus patrulheiros elfos.

Andèmona afivelou seu corselete e atou as espadas à cintura. Correu para fora da cabana passando a mão no cabo da lança que estava apoiada contra a parede. Seu grupo já estava todo preparado aguardando o sinal que ela daria. Sabia que aquilo chegaria hora ou outra. Uma cidade de elfos negros crescia a cada dia nas proximidades da fronteira nordeste de Fiênili. A meio-elfa sabia que não tardaria até que enfrentar seus antigos fantasmas. E aquela hora havia chegado.

Seus dois batedores seguiram alguns metros à frente espreitando entre as folhagens, raízes altas e cipós. Os demais corriam junto à ela tentando fazer o mínimo de barulho possível. Alguns seguiam de galho em galho pelas árvores e saltavam de um lado para o outro em cima. Andèmona corria pelo chão, desviando das raízes e pedras, saltando galhos e seguindo uma linha reta rumo ao leste.

De longe avistaram as aranhas. Eram maiores que cavalos, mas a contar por suas patas ficavam mais altas. Montados nelas havia cavaleiros kzaelds. De repente o antigo temor acercou do coração de Andèmona. Lembranças das injustiças e terríveis acontecimentos do passado permearam em sua mente. Mas ela as afastou tentando se concentrar no presente.

— Cinco aranhas com cavaleiros e pelo menos duas dezenas de guerreiros. — reportou um dos batedores.

Ela parou alguns instantes e analisou a situação. Eles são muitos, não somos, nem de longe, páreos contra eles. Precisaremos acionar a guarda. Mas não podemos fazer àquilo daqui; precisaremos antes garantir a nossa própria sobrevivência.

— Para Hethos! — ela disse rispidamente. — O mais rápido possível…

Antes de terminar de falar uma flecha negra acertou o couro de sua armadura, por pouco não ultrapassando e acertando sua pele. Ao puxar o projétil, Andèmona viu o veneno vermelho viscoso escorrendo pela seta afiada. Os kzaelds usavam o próprio sangue venenoso que corria em suas veias.

O grupo de patrulheiros correu pela mata à dentro em grande velocidade. Conheciam melhor a região e tirariam proveito disso. No entanto, a noite já caia e os kzaelds se aproveitariam desta oportunidade. Temendo ascender tochas para se guiar, usaram pequenos bastões que emitiam luz fraca, mas o suficiente para que sua visão élfica fosse capaz de enxergar. Para Andèmona não havia problema, sua descendência kzaeld lhe permitia enxergar um pouco no escuro.

Cruzaram riachos e percorreram vales repletos de árvores. O dia já estava amanhecendo quando mais flechas choveram sobre suas cabeças. Todos estavam cansados, mas precisavam descansar. Inclusive seus perseguidores.

— Podemos usar o dia contra eles. — disse Thinter, o meio-elfo. — Estamos cansados, e eles também. Mas duvido que consigam correr a luz do dia claro como nós poderemos.

— É arriscado demais. — grunhiu outro meio-elfo, de nome Laneôr.

Todos os olhos se voltaram para Andèmona.

— Vamos… vamos arrumar um abrigo e descansar. — sua voz soou fraca e baixa, quando perguntaram um ‘ahn?’, ela repetiu as mesmas palavras em tom mais audível e com palavras mais duras.

Encontraram algumas pedras numa formação rochosa próximo a uma cachoeira. Lá armaram camas de grama e descansaram escondidos por entre as pedras. Andèmona despertou sobressaltada quando sentiu o cheiro da noite se aproximar.

Todos se ergueram com o pôr do sol. Os elfos saíram de seu transe e os meio-elfos acordaram. Lá embaixo, no riacho, viram formas escuras esgueirando-se na margem oriental do rio que serpenteava ao longo do vale a mais de cinquenta metros abaixo.

— Os malditos já estão aqui!

Continuaram correndo pela selva escura por mais doze horas e um novo dia estava raiando. A todo o momento em que olhavam para trás viam seus perseguidores aproximando-se, pareciam cada vez mais perto. Quanto mais corriam, quanto mais se esforçavam, mais parecia que eles se aproximavam.

De repente Andèmona para de correr.

Os demais cessam a corrida e olham para a meio-elfa negra sem entender.

— Vamos ficar e lutar. — ela disse apoiando-se na lança e respirando ofegante. Sabia que respondia a pergunta de todos com aqueles dizeres. — Nunca conseguiremos alcançar Hethos desta forma. Eles estão sempre em nossas costas. Enviarei um de vocês enquanto nós permaneceremos e lutamos. Dará o alarme e avisará a cidade.

Ninguém iria se candidatar, pois sabiam que aquele que fosse o mensageiro escaparia e os demais se sacrificariam por ele. E a caçadora sabia disso. Fechou os olhos e apontou com a lança para um deles tentando agir de forma randômica.

— Kin — falou ela — vá e avise a cidade.

Ele tentou retrucar, mas ela fez um gesto para que ele não respondesse. Angustiado, Kin correu o vale até embaixo e continuou em direção a Hethos. Os demais armaram arcos e flechas, espadas, lanças e aguardaram seus atacantes. Usaram árvores como pontos altos de vigilância, buracos cobertos de folhas como esconderijos e outras formas de tirar vantagem do terreno.

Mas a luta foi uma completa carnificina.

Andèmona foi obrigada a ver todos sendo capturados e amarrados. Um a um viu seus gentis amigos sendo empalados e deixados para os animais selvagens comerem os restos mortais. Ela, em especial, foi amordaçada e levada de volta com eles. Sem entender o porquê de não ter sido morta também, sentiu o coração apertado.

Talvez, pensou ela, tenham sentido minha falta em Griffuldûr e mandaram um alerta para Valkebona, mas não havia como saber que ela era a fugitiva de lá. Não havia! Desculpem-me meus amigos, disse mentalmente. Maya proteja-me, por favor.